Davi Kopenawa Yanomami

No passado, quando os brancos não tinham chegado até a nossa floresta, não pensem que éramos ignorantes. Nossos xamãs sabiam nos curar. Eles faziam seu trabalho e apenas poucas pessoas morriam. Mas agora, depois que os garimpeiros chegaram até nossa floresta, tememos a malária, a tuberculose e outras doenças perigosas. Nós temos medo das epidemias-xawara que eles deixaram atrás.
Esses são males que vêm de longe, que os xamãs não conhecem. Os seus espíritos xapiripë só sabem matar as doenças que conhecemos desde sempre. Quando eles tentam lutar contra as xawara sozinhos, estas doenças perigosas podem matá-los  também.  Para

afastar estes males agora, só juntando força com os remédios de vocês.
Nós não sabemos ainda ler os seus papéis, não sabemos ainda usar seus remédios. É preciso que vocês nos ensinem a usá-los para acabar com a malária, as pneumonias, a tuberculose e suas outras doenças. Então, quando nossos jovens souberem de tudo isso, nós poderemos nos curar sozinhos, como antes.

Davi Kopenawa Yanomami
Depoimento recolhido e traduzido por B. Albert - versão revisada de texto publicado em:
Saúde Yanomami. Um manual etnolingûístico. B. Albert & G. Goodwin Gomez, 1997 - Belém: Museu Goeldi.

Breve Histórico Epidemiológico

Os Yanomami viveram relativamente isolados até à metade do século XX. Desde então, através do contato com as diversas frentes de colonização e de exploração econômica têm sofrido grandes impactos epidemiológicos e demográficos. A última importante frente de contato, a chamada "corrida do ouro em Roraima" em meados da década de 80, resultou na introdução de um grande número de doenças infecto-contagiosas que, associada ao precário sistema de assistência à saúde, foi responsável por uma altíssima mortalidade nos anos 90.
O Coeficiente de Mortalidade Infantil registrado em 1998 e em 1999, nas regiões que hoje estão sendo assistidas através do convênio FUNASA/URIHI, foram respectivamente 172,1 e 160,4. Como a cobertura da assistência nesses anos era insuficiente, com muitas comunidades recebendo visitas com intervalos de vários meses, provavelmente ocorreram muitos outros óbitos em crianças menores de um ano que acabaram sem qualquer registro. Mesmo assim, o Coeficiente de Mortalidade Infantil registrado nesse período era só comparável ao das regiões mais pobres da África. Nesse mesmo período, a média do Coeficiente de Mortalidade Geral foi cerca de 3 vezes maior do que o verificado na população brasileira em geral (20,4).
Após apenas um ano de assistência permanente, esta população apresentou uma expressiva redução da mortalidade: no ano 2000 houve uma diminuição de 60% no Coeficiente de Mortalidade Infantil (63,2) e de 50% no Coeficiente de Mortalidade Geral (8,3), conforme se pode observar nas páginas adiante. Com o desenvolvimento dos programas de controle das principais doenças, temos verificado uma persistência nessas tendências de queda tanto na mortalidade geral quanto na mortalidade infantil, durante os primeiros 6 meses do ano 2001.